Di.ci.o.ná.ri.o

Cláudio Moreno tenta combater"[...] a idéia ingênua de que o dicionário seja o repositório de todas as palavras existentes de nossa língua, uma espécie de cartório de registro de nascimentos onde os falantes podem conferir a existência ou não de um vocábulo. Nada mais falso; um dicionário é apenas uma seleção dos vocábulos que o seu autor considera mais importantes neste momento." [grifo meu]

Bom, doutor, se me permite: eu sou o autor e depois de uma série de complicações tentando definir meus termos e me fazer entender, achei que era a hora de embaçar tudo de vez.

22 de outubro de 2009

Necessidades: ar

Já me passaram pelos olhos e ouvidos diversas dessas listas de necessidades básicas humanas. Alguns as resumem em ar, água, comida, abrigo e reprodução. Outros vão além, chegando à criatividade, moralidade ou uma garrafa de Heineken.
Essa lista de cinco elementos, na verdade, resumiria as primeiras coisas que um ser humano busca quando se vê num ambiente novo. Se jogam um cara no mar, ele sairá à superfície. Digamos que ele encontre a praia. Irá primeiro à água de coco, depois à bananeira, à construção de sua palafita até que aquela nativa dê mole.
Quanto à veracidade disso, consultem algum antropólogo de verdade.
Começo com o ar, pois.

Ar

"Até o ar é uma casa, se soubermos habitá-lo, principalmente o ar da rua."
Carlos Drummond de Andrade.

A busca fisiológica por ar é imperceptível. Em bom português: it's a given. A gente sente sede, fome et al, mas a falta de ar é rara a poucos nós acometidos por asma ou bronquite que sabemos quão essencial é o oxigênio. You don't know what you've got 'till it's gone.
E talvez seja isso mesmo. As necessidades primeiras são relacionadas ao que nos cerca a todo momento. E não há jeito de saber quão primeira é a necessidade sem que nos vejamos longe dela.

E, às vezes, ao estarmos longe...

Tosse, tosse, tosse

- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...

Nos resta o tango mesmo. Nada mais.

3 de novembro de 2008

Hospício, Sanatório, Hospital

As palavras aí em cima têm proximidades e distâncias. E, como todos sabemos, têm também pouca confusão em seu uso corrente. Então por que dar pitaco no que não tem lá tanta confusão? Bem, todos sabemos que é divertido dar pitaco.


Primeiro: não é exatamente muito clara a distinção das palavras. Pelo menos as duas primeiras. A idéia que tínhamos eu, o porteiro da faculdade e uma colega diferia em muito. Na hora em que o problema surgiu, eu já fui nos radicais. Sanar e hopitalidade. O hospício, segundo a colega, portando, era a hospitalidade dos vícios. E a gente sabe que vício não é exatamente ligado a narcóticos. Principalmente você, aí, cutucando o nariz. O Houaiss difere os dois primeiros em relação ao modo de tratamento. O primeiro como abrigo. O segundo como repouso.
Pra quem viu Bicho de Sete Cabeças, sabe que não há nada de abrigo e repouso no atual tratamento de pacientes mentais. A coisa é muito mais invasiva e agressiva que as idéias bonitas que a gente tem.
Bom, quando eu faço a piada de que alguém que me abrigou foi extremamente 'hospitalar'... isso acaba sendo um simples desvio nas idéias. E tem mais. Tem sido tão sanatório o meu convívio com loucos, que ouso dizer que meus comparsas têm sido, em sua hospitalidade, não hospitalares, mas hospiciais.

11 de maio de 2008

Ascepção ligeira


Aqueles maneirismos que a gente acha que nunca serão passados ao papel. Que a gente acha que ficarão na boca do povo até ficar mais por fora que umbigo de chacrete,* por vezes surpreendem e são escritos:

– Bom dia. Um pingado e um misto sem maionese ** por favor.
– Já sai, moço.

[minutos depois: a conta. leio: fica 2,1o o misto e 1,20 o pingado, daí]

* "Falar que algo é 'jóia' está mais por fora que umbigo de cacrete". Ricardo Rizek em uma de suas inestimáveis aulas.
** Maneirismos gastronômicos: A maionese [ao invés da – na minha visão, obrigatória] manteiga, tem gente por aqui que põe maionese não só no misto quente, mas em tudo. Outro: se peço um café, 92,3% das atendentes de padocas de Curitiba ouvem café com leite.

Defina... ou embace...

16 de abril de 2008

Ouver

Eu ouvejo
Tu ouvês
Ele ouvê
Nós ouvemos
Vós ouveis
Eles ouvêem

Ouver. v. apreciar algum contexto audiovisual.
Etimologia: elisão entre os verbos ouvir e ver. Simples assim.

Eu nunca tinha ouvisto este filme. Nós o ouveremos amanhã.


Como dicionarista havia me proposto a mim mesmo cá com meus botões a discutir as coisas do léxico já como elas estão [mais ou menos] estabelecidas. Mas também não posso me privar de querer dar pitaco de neologista, que é bem divertido. Acho que já usei esse verbo alguma adolescência de vezes [a melhor tradução que achei para outro neologismo meu, em inglês: someteen times] geralmente pra falar de filmes mesmo.
A questão é que eu como músico comecei a ficar incomodado por que pra puxar papo sobre filme – o que em 68% das vezes é interessante pela trilha sonora – a gente usa o 'ver'. E aí depois tem que mudar o sentido pra ir pro papo que se quer. Como trata-se de um meio audiovisual, o verbo ouvir também é importante pra se falar de filmes, TV, teatro... há uma justificativa semântica. E uma metodologia estatística:

audio: 5 letras (45,55%)
visual: 6 letras (54,44%)
audiovisual: 11 letras (100%)

arredondando:

ou: 2 letras (40%)
ver: 3 letras (60%)
ouver: 5 letras (100%)

Fica a idéia aos colegas. Cumpro meu dever de definir meus termos [ou... embaçá-los de vez?]

Mais informações sobre sentidos!

27 de março de 2008

"Glass, concrete and stone,
Just a house, not a home"
Lar.
Ontem ví a primeira parte de um filme (espero terminar hoje): LavourArcaica. André foge de casa, do ninho em que os pais, o avô e os irmãos constroem uma bonita vida em família. Talvez não tão bonita assim. Ao falar de sua saída, André me deixou pensativo:
Estamos sempre indo pra casa.
Essa idéia de casa; de ninho, é sempre intensa pra quem já deixou o seu e descobriu que, nos dicionários particulares que carregamos no peito – leia a descrição de dicionário, acima – o verbete lar parece desaparecer. Há casas: onde moro, de meus pais, de meus amigos. Há locais: da faculdade, da infância. Mas a ascepção de lar torna-se dinâmica. Como bem captada pelo André do filme. Lar é pra onde estamos indo.
1. LAR: LOCAL, NA COZINHA, ONDE SE ACENDE O FOGO. LAREIRA.
Essa é a ascepção original (e ouçam original como 'relacionado à origem' e não como 'inédito' como alguns ainda teimam em ouvir) que mostra a beleza da linguagem nossa. Estamos indo ao calor da cozinha. Buscamos este calor perdido no primeiro passo dado fora da sombra da asa.
A gente vai se tornando frio na distância do lar. E numa obviedade física, ficamos mais rijos. Falta energia e os pedaços se unem mais. E essa nossa natureza é mágica. É exatamente na distância do lar que precisamos de casca, casco pra pisar em chão novo. Endurecemos. Enrijecemos como ferro e como giz.

Tentando não quebrar. Quebrantar.

Lar. do dicionário do peito.

19 de março de 2008

Li.vro
1.Objeto portátil, impresso em algum lugar, por alguém(s), para alguém(s) com a particularidade de poder providenciar informações aprofundadas sobre algo.
2. Objeto portátil contendo um romance.
versão expandida

15 de fevereiro de 2008

Série
palavras engraçadas que o Tadeu gosta


Tenho outro blogue.
Nele há um termo que achei no orkut e achei bacana e usei: me-mim-comigo.
Esse termo faz par com um verbo que uso, de forma corrente: ensimesmar.

Aí, na série das engraçadas, vai uma dupla de termos autistas.

En.si.mes.mar
1.tornar a si mesmo.

Me-mim-comigo
1.
Atributo da psique humana que a ensimesma.

O século XXI está nos jogando pra dentro de nós mesmos dum jeito meio violento. A geração 'walkman', há 15, 20 anos atrás, tinha uma prática (confira-a em alta fidelidade!) de gravar fitas e organizá-las. O aparelho era pessoal, mas o formato K7 dava um impulso bacana na vivência social da música. Gravar uma fita pra si mesmo ou prum amigo era tarefa árdua, que demandava um senso de organização aguçado.
Porém, a semente do individualismo foi plantada.
A geração IPod tem lá seu jeito de viver em conjunto com podcasts bem interessantes. Mas não dá pra negar, aquela playlist com Radiohead, Sidney Magal, Guilherme Arantes, Kronos Quartet, e mais a salada que se puder imaginar ensimesmou os ouvintes em suas memórias e gostos.
Esse me-mim-comigo do IPod está também nos filmes que você vê, da sua coleção própria, na TV que você se programa, no blogue que eu escrevo e só eu leio. [eu, não. um amigo].

Se quero mais socialização, mais ensimesmamento? Se o me-mim-comigo é vírus ou sei-lá-o-que? Não sei. Só embaço termos.

Defina seus termos, ou embace-os de vez.